Dependência nas importações de fertilizantes e defensivos expõe o poderoso agronegócio brasileiro a um nível de risco demasiado alto
Em julho de 2020, escrevi um texto neste blog com o título: “Fertilizantes: o calcanhar de Aquiles do agro brasileiro”.
Um ano mais tarde, revisitei o tema com o título: “Fertilizantes: o calcanhar de Aquiles segue piorando”.
Afirmei, nas duas oportunidades, que a exagerada dependência nas importações de fertilizantes e defensivos expõe o poderoso agronegócio brasileiro a um nível de risco demasiado alto. Isto porque crises poderiam eclodir a qualquer momento provocadas por questões geopolíticas ou econômico-financeiras nos principais países fornecedores. Infelizmente, neste mês de setembro, elas aconteceram, gerando forte aumento de custos e restrições ao cultivo nas próximas safras.
Como as tempestades afetaram fertilizantes e defensivos
No início de setembro, o noticiário internacional mostrou uma China que não conseguia administrar o estouro de enorme bolha imobiliária num segmento que movimenta 25% do segundo maior PIB do mundo. O conglomerado empresarial Evergrande, com seus 3 milhões de empregados, balançou as bolsas ocidentais ao evaporar US$ 305 bilhões em créditos e haveres de fornecedores e compradores de 1,6 milhões de moradias não entregues.
Em outra frente, o mundo continua a atravessar uma conjuntura de preços altos de petróleo e gás devido à baixa nos estoques em fase de recuperação de consumo na fase pós-pandêmica da Covid-19. O petróleo tipo Brent atingiu US$ 80 por barril, no dia 28 do corrente mês, com tendência de mais aumento. Junto, é claro, veio o aperto no fornecimento do gás, fonte energética de grande importância para mover a indústria e o consumo doméstico. Os preços dos subprodutos fertilizantes, como a ureia, estão acompanhando a vertiginosa subida.
No meio de uma crise energética mundial, o governo chinês além de cortar a oferta interna, resolveu ajustar seu modelo para atingir os compromissos ditados por metas de emissão neutra de carbono até 2035, para não ficar atrás do rival sujão do planeta, os EUA. A iniciativa é louvável, mas inoportuna e sem preparação de alternativas e ajustes necessários. O governo central impôs restrições à produção de carvão (sua principal fonte energética) e cortou parcialmente o fornecimento de eletricidade às províncias – decisões ao estilo dos ambientalistas radicais propõem – e, por decorrência, criou uma grande crise de suprimento de fertilizantes, defensivos, alumínio, tintas e metais para construção, entre outros produtos.
Resultado de tudo isso é a queda na projeção de crescimento do PIB chinês de 9% para a faixa de 6% a 7%, segundo analistas internacionais de mercado, limitação nas exportações de glifosato e também de fertilizantes os quais demandam muita energia para processar a matéria-prima fósforo amarelo.
Outra frente de vulnerabilidade do nosso abastecimento de fertilizantes e defensivos, é a de crises de índole geopolítica nos países exportadores. E veio sem data para terminar, desta vez envolvendo União Europeia e Bielorrússia. Ocorre que este país é responsável por 20% da oferta de potássicos no mercado mundial. A instabilidade no mercado em razão dos bloqueios europeus provocou aumento no preço deste fertilizante essencial e do qual o Brasil produz apenas 2% do que nossa agricultura consome.
A tempestade não seria perfeita se não houvesse aumento no preço dos nitrogenados. E veio em decorrência da baixa nos estoques de petróleo e gás, na entrada do inverno no hemisfério norte, explicando o incessante aumento no preço do petróleo, e por consequência na indispensável ureia.
O previsível rompimento do calcanhar de Aquiles ocorreu, causando forte elevação de custos para a próxima safra de inverno, a segunda safra de milho e a próxima safra de verão 2022/23. Além do repasse parcial deste ônus aos consumidores, os agricultores terão diminuídas suas margens de lucro, e talvez menor expansão de área a ser cultivada. As mencionadas crises trouxeram forte aumento no preço da tonelada de potássio, dos fosfatados, da ureia e das 134 mil toneladas de glifosato importadas da China, para a safra 2021. Só este último terá que absorver um aumento da ordem de 230% que o agro terá que pagar para continuar utilizando o mesmo volume para livrar as lavouras das ervas daninhas.
O agro terá que conviver com forte aumento na relação saco de soja/milho por tonelada desses imprescindíveis insumos. A opção de menos uso significará queda de produtividade e de volume produzido.
Conclusão: É patético constatar que a enorme vulnerabilidade do agro brasileiro prossegue sem perspectivas de melhora substancial a médio prazo, e que não precisaria ser assim num país que possui jazidas que poderiam transformá-lo de importador a supridor mundial de diversos fertilizantes, e reforçando os passos do gigante fornecedor de alimentos saudáveis, em condições ambientalmente sustentáveis. Para isso, é necessário bom senso nas decisões, evitar precipitações como a que China acaba de praticar, moderação por parte dos ambientalistas e indigenistas puritanos para que os volumosos investimentos possam se concretizar, digo, para que o calcanhar seja fortalecido para resistir às instabilidades no mercado mundial.